• Projeto Resgate

Inovação disruptiva



Muito se fala de inovação e de inovação com substantivo, ou seja, inovação disruptiva, aquela que será o “the next big thing” como dizem os americanos.

Quando falamos de inovação, a percepção é que neste exato momento temos centenas de cientistas e gênios desenvolvendo alguma tecnologia em seus laboratórios e centros de pesquisa.


Mas o que é inovação disruptiva? Big Data, Inteligência Artificial, Economia Compartilhada e Blockchain são candidatas?


O que são as inovações disruptivas?


Inovações disruptivas são difíceis de definir pois, para serem disruptivas precisam ser únicas, inusitadas, “uma surpresa”. Em resumo, precisam ser geniais. Mas a genialidade pode também ser algo impossível, dependendo de quando ela é proposta e se o público está preparado para usá-la.


Muitas vezes uma nova tecnologia não decola por não estar pronta, como o carro elétrico inventado no século 19, mas que só agora virou realidade. Outras vezes a tecnologia já está pronta, mas o público ainda não. O smartphone já existe deste a década de 90, mas só decolou depois do IPhone.


Assim existe um grande grau de incerteza sobre se uma inovação é disruptiva, ou se é algo inútil ou na época errada para decolar.


Na maioria dos casos, posso dizer que quase todas tecnologias que vamos usar em inovações disruptivas nos próximos 10 anos já existem e estão maduras, mas inovação tecnológica demanda tempo e dinheiro para que seja adotada.


Assim, a inovação virá muito mais de novos usos, novos modelos de negócio e conexões diferentes. Na realidade vão depender mais de viabilidade econômica e comercial, do que tecnológica.


Inovações disruptivas que já estão aí


Quando falo das tecnologias que já existem hoje, e que já estão ou vão permitir inovações disruptivas, cito inicialmente o Big Data. Nunca tivemos tanta informação e nunca o volume dela cresceu tanto. Assim ferramentas e negócios que sejam baseados na manipulação, visualização e interpretação deste volume enorme de dados terão grande mercado.


O Big Data vai afetar todos os setores da economia, mas os setores financeiro, varejo e governo são os que devem ter os maiores impactos.


Outra tecnologia que será necessária para manipular estes dados, sejam históricos ou em tempo real, são as ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Ela é fundamental para a geração de insights sobre um grande volume de dados históricos. Quem compra um determinado livro X, também compra o livro Y, por conta das recomendações que a inteligência artificial pode fazer. Amazon e NetFlix já fazem isso.


Esta tecnologia vai afetar também a área de serviços, como na medicina diagnóstica e em call centers que usam chatbots – robôs virtuais que simulam uma conversa com o consumidor – escritórios de advocacia, entre outros.


Fazendo uma metáfora com o corpo humano, é preciso ter memória – Big Data,

e inteligência – IA, para interpretar dados novos versus dados históricos. Mas também é necessário ver, ouvir e sentir o que acontece ao nosso redor.


Neste cenário, surge a Internet das Coisas (IoT). Por meio de sensores, muitos já existentes nos celulares, como o GPS, ou novos dispositivos a serem instalados em veículos, eletrodomésticos, semáforos, animais, árvores, pontes, entre outros, poderemos “sentir” o que acontece ao nosso redor. E em tempo real.


Com estes sensores poderemos saber onde as “coisas” estão, se estão funcionando ou não, quanto estão sendo usadas pelos consumidores. Isto irá facilitar uma expansão do que chamamos de Shared Economy, pois será mais fácil e barato manter as “coisas” que estão sendo compartilhadas. Basta lembrarmos do Uber e do AirBnB.


Inovações disruptivas impulsionam a Indústria 4.0


A IoT também possibilitará a Indústria 4.0 que, junto com a robótica, permitirá não só uma automação personalizada do chão de fábrica, mas também o aluguel de equipamentos pelo uso, ao invés da venda.


Será possível alugar uma lavadoura de roupas, e pagar por quilo lavado. O fabricante vai saber quanto foi lavado em tempo real. Assim como vai identificar facilmente uma eventual necessidade de conserto. Isto vai mudar consideravelmente a manufatura, aumentando a exigência quanto a durabilidade, assistência técnica ou o descarte dos equipamentos.


Este novo modelo de aluguel e de economia compartilhada é muito mais sustentável e ecológica, mas também demandará que as empresas de manufatura se transformem em empresas de serviços, que mantém os equipamentos funcionando. Elas também passarão a ter um relacionamento de longo prazo com o cliente final.


Com certeza as inovações disruptivas também afetam o varejo, que, mais do que nunca, se transformará em prestador de serviços ao cliente final.


Novas formas de lidar com o consumidor, seja pela indústria ou pelo varejo, serão fundamentais para a sobrevivência de qualquer negócio no futuro. A capacidade de gerir, administrar e prever suas expectativas usando o grande volume de dados e a capacidade de interpretá-los será um diferencial competitivo.


Blockchain a disrupção mais recente


Por último, precisamos falar de BlockChain, talvez a mais disruptivo de todas as tecnologias e a última a ser criada. Importante não confundir com BitCoin uma criptomoeda, que é uma das aplicações do BlockChain.


Uma das vantagens do mundo digital é possível copiar tudo, e assim a informação pode ser re usada de forma infinita. Essa é a era da Informação!


Contudo isto também é uma desvantagem quando é preciso ser único, e sem cópias, como acontece com o dinheiro.


Se você tem uma nota de 100 dólares, fazer uma cópia em uma impressora colorida é crime e não geração de riqueza. E isso também vale para propriedade intelectual, como livros, filmes ou músicas. E existem casos em que as cópias precisam ser controladas e rastreadas, como contratos, escrituras de imóveis, entre outros.


O BlockChain garante a unicidade de algo, e cópias controladas quando necessário. Essa inovação vai afetar (e muito!) o setor financeiro, mas principalmente o governo e seu conceito de soberania. Você pode entender melhor nessa matéria.


Vale salientar que isto gera um círculo virtuoso: quanto mais usamos IoT, blockchain, ou desenvolvemos modelos de negócios baseados em Shared Economy ou Indústria 4.0, mais dados geramos. Com isso, impulsionamos o Big Data e a IA.


Você achou o texto acima conversa de boteco? Lembre-se que HP e a Apple foram fundadas em uma garagem, o primeiro computador da Compaq foi desenhado em um guardanapo em um restaurante, a Microsoft foi fundada em um motel em Nevada, e o Facebook em um dormitório de Harvard.


Assim não espere nada disruptivo vindo das grandes empresas ou laboratórios de pesquisa. Provavelmente virá de uma conversa de boteco mesmo.

Créditos:

Jorge Steffens

Sócio-fundador da Oria capital, gestora de investimentos em empresas de tecnologia.

Foi executivo da Datasul por mais de 20 anos onde foi diretor-presidente, liderou a internacionalização da empresa e o processo de abertura de capital, e posterior fusão com a Totvs.


Jorge é formado em Tecnologia da Informação pelo Mackenzie-SP/URB, pós-graduado em Marketing e Engenharia da Produção e especializado em gestão pela Universidade de Stanford.

2 visualizações0 comentário